PRINCÍPIO DA SEMANA #90

re·ti·ro- Lugar retirado; Refúgio; Casa de campo ou em sítio ermo; Remanso; Solidão; Período de afastamento da vida activa, consagrado à meditação religiosa, ao recolhimento, à oração.

Até há bem pouco tempo não me passaria pela cabeça passar por este tipo de experiência. Sou daquelas pessoas que só a palavra meditar já me faz, ou fazia, ficar nervosa. Sim, nervosa. Isto porque de todas as vezes que tinha tentado acabava com uma enorme frustração, pois não conseguia nem por um minuto desligar de tudo o que tinha para fazer e estava ali, não conseguia nunca "ver as luzes", ou os pontos de luz que era suposto ver, o estar quieta para mim era o desafio dos desafios. Preferira 1000 vezes que me pedissem para correr não sei quantos km's do que me pedirem para estar quieta. Mas e como estamos sempre em constante mutação e como acredito sempre que tudo o que precisamos mesmo vem ter connosco, o bom e o menos bom, este fim-de-semana, fui e estive num sítio que já andava para visitar há algum tempo mas não apenas em visita. Estive no que é chamado de retiro.

A imagem idílica de que vamos para um lugar deste género e estamos lá apenas a pensar, meditar, em suma a não fazer nada, não corresponde bem à realidade. O desafio é enorme. Começa pelo ir, não é o decidir ir, é o ir em si. O acordar de madrugada, até hoje apenas duas coisas me tinham feito acordar às 5.00. Viajar e motivos profissionais. Nunca tinha acordado a esta hora por vontade própria, isso só em si, pelo menos para mim que não sou de todo pessoa que goste de acordar de madrugada, já foi um enorme desafio e conquista. O estarmos sozinhos junto de pessoas que não conhecemos de lado nenhum, o não falar com ninguém, o jejum e todas as regras que existem para cumprir, são tudo provas que à partida nos fazem logo pensar em desistir, como tudo o que nos faz sair da nossa confortável zona de conforto... Ainda que não tenha conseguido cumprir todas à risca, pois entre outras coisas, é mesmo difícil nos afastarmos da vida "lá fora", para primeira vez, para alguém em que a palavra "quieta" não existia, o balanço foi muito positivo.

De muitíssimas conclusões a que cheguei, e que ainda estou naturalmente a assimilar, há muito que dizer sobre este conceito de não fazer nada. Este não fazer nada pode significar, muitas vezes, fazer o que é necessário fazer, no momento presente, e por isso o nada transforma-se em tudo. Outra das ideias associadas ao estar em retiro é estar isolado e sim de certa forma pode-se dizer que sim, por vários motivos, mas acredito que este isolamento é mesmo exterior, o que quer dizer que nunca estamos tanto connosco do que numa experiência deste tipo. Acredito que o que nos faz exactamente ir para um sítio assim é o, e por vários motivos, nos termos afastado de nós e da nossa essência. Momentos psicologicamente muito fortes, breves ou não, em que sabemos que não fomos o que somos em que vivemos registos que não são nossos e nos fizeram sentir outra(s) pessoa(s). E apesar de terem a sua enorme importância, para nos conhecermos ainda mais e melhor, sabemos que "aquilo" não é nosso. Não se trata apenas de não sermos nós, ou de não queremos ser assim, é muito mais profundo que isso. Por isso, o estar isolados do mundo, acaba por nos devolver a ele, e é por isso que também este isolamento é muito relativo. Depende da forma como o encaramos. 

Muito mais que recomendar ou não, pois penso que aqui não se pode, ou não se deve, utilizar esse termo, digo antes que acredito que todos nós em algum momento devemos e precisamos de o fazer, nem que seja apenas uma vez, um dia. E acredito também que há momentos em que o "agora não posso" e "agora não dá mesmo jeito", pura e simplesmente desaparecem e vamos sem pensar muito, porque apesar de ser uma decisão racional, o que nos move a fazê-lo é puramente emocional e instintivo. Simplesmente sabemos que devemos ir. Sem medo.

"... Tudo isto revela uma grande simplicidade de espírito, porque podemos, sempre que assim o quisermos, encontrar retiro em nós mesmos. Em parte alguma se encontra lugar mais tranquilo, mais isento de arruídos, que na alma". Marco Aurélio

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