Crónicas da Inês #15

Primeiros encontros

Não gosto de primeiros encontros.
Aborrece-me o ritual de conhecer homens novos.

Cansa-me observar os rituais de caça dos elementos do sexo masculino, amorfos, etéreos, indiscriminados. Não gosto de participar nesses jogos de gato e rato, onde as frases são sempre as mesmas, as indirectas não variam, onde não há adaptações à pessoa com que se está a conversar e onde, no final, podia ter apenas um texto decorado que debitava numa ordem aleatória e que alimentava essas primeiras conversas sem qualquer falha. Quantos anos tens? Onde trabalhas? Tens irmãos? Onde moras? Onde costumas sair à noite? Onde vais à praia? Tudo isto intercalado com elogios erróneos, gratuitos, sem valor.

É como se, cada vez que aparece um homem novo, não passasse mais do que um déjà vu, uma repetição da conversa que tiveste na noite anterior e onde só muda a personagem que contracena contigo. Seja na discoteca, seja no centro comercial, no trabalho, de dia ou de noite, as frases são sempre as mesmas.

E a repetição das mesmas rotinas também: escolher o restaurante; escolher o que vestir; paga ele ou dividimos?; convido eu ou convida ele? Ai o que vai ele pensar de mim?!; beijo no primeiro encontro ou não? Ai o que vai ele pensar de mim?!; sexo no primeiro encontro ou não? Ai o que vai ele pensar de mim?!; telefono no dia a seguir ou espero que ele telefone? Ai e se ele não telefonar?!

Até que um dia, aparece alguém que faz as perguntas certas. Com sentido. Com significado. Alguém que liga em vez de enviar mensagem. Alguém que proporciona encontros reais e não conversas intermináveis no Facebook. Alguém que é transparente nas suas intenções e que não está viciado no jogo do flirt. E aí, é como se todas as peças do puzzle se encaixassem, como se tivesses direito a produzir uma nova película, com um argumento original; e isso pode ser o sinal que encontraste o tal. E tens a oportunidade de ser criativa, de experimentar coisas novas, de te deixar levar e apreciar e aproveitar… pelo menos até nenhum dos dois se cansar e teres de voltar para o mercado, para a fila dos que só usam whatsapp e que te obrigam a tomar todas as decisões como seja “vamos tomar café onde?”… ou daí, quem sabe, ninguém se cansa e é a tua oportunidade de fechar a loja?

Imagem © Direitos reservados

CONVERSATION

3 comentários:

  1. Que bom é ter vivido esta fase no tempo em que nem telemóveis havia. Que refrescante é olhar para trás e pensar que me resguardei um pouco (houve momentos em que me arrependi disso). E que não tive nem oportunidade de fazer uma análise comparativa de primeiros ou segundos encontros.
    Que sorte estar em 2015 numa fase da vida em que já não me preocupo com estas questões. Preocupo-me e muito em manter a chama a bombar, viver a história a dois mesmo no meio dum caos geral que se desenrola à nossa volta. Um ruído que em muitas ocasiões não pode passar disso mesmo – Ruído. A necessidade de nos isolarmos do mundo é tal que nos sentimos náufragos cuja preocupação de vir à tona e respirar se sobrepõe a tudo. E esta consciência de “termos de nos manter unidos” aconteça o que acontecer nasceu de termos vivido o risco de nos perdermos. Não queremos entrar nos rituais dos primeiros encontros de hoje em dia. Não dominamos esta linguagem. Fechámos a loja! E somos felizes assim! Catarina F.

    ResponderEliminar
  2. Gostei muito deste texto e acho que todas nós nos identificamos um pouco porque às tantas eles não têm a noção que já são mais estereótipos do que outra coisa.Identificamos o tipo, a conversa, as intenções numa ápice.Nós tb seremos claro, no prisma deles.

    ResponderEliminar
  3. Tudo na vida tem o primeiro encontro o que marca a diferença é sempre a maneira como o encaramos...Porquê tanta pressão em algo tão natural ?!! Antes do Onde, O que vestir e tudo o resto...Just be You !!
    Se gostarem de nós q seja por nós e não por teres criado uma imagem e teres cumprido as respostas certas...
    As oportunidades é para quem merece e faz por isso

    ResponderEliminar

Back
to top