Crónicas da Inês #2

Ali mesmo ao virar da esquina:
Ouço o som das minhas lágrimas a caírem sobre o mármore frio do móvel da casa de banho enquanto vislumbro o que resta de mim no reflexo do espelho. Por entre a luz quente do candeeiro vejo os fios finos de cabelo que sobraram de mim e como a minha pele se tornou translúcida. Por cima destas olheiras negras moram agora uns olhos verdes vazios e molhados mas cheios de esperança. E força… força que vive num vai e vem entre os dias em que me sinto bem e os dias da quimioterapia. Esses dias em que o meu pai me carrega até casa, derreada que me sinto de travar esta guerra. Esses dias em que as náuseas invadem o meu espaço, onde me arrasto entre o sofá e a cama e onde choro, extenuada desta vida para a qual fui empurrada. Mas que é vida ainda, e por isso, um misto de gratidão e raiva invadem o meu coração.

Carrego esta dor solitária do peso que coloquei nos meus pais, nos meus irmãos, nos meus amigos. Esta incerteza de não saber se amanhã estarei cá e da consternação que essa dubiedade deixa naqueles que amo. Percebi que o seu estado de espírito ficou dependente da minha disposição e por isso, sempre que posso, finjo. Finjo não sentir a angústia dos meus planos de futuro que me foram arrancados, adiados para um dia que não sei se chegará. Encapoto e mascaro este sofrimento físico e emocional que mora em mim 24 horas por dia. Escondo a revolta, a raiva, o desgosto do dia em que o meu namorado me deixou porque “isto” era demais para ele.

Enquanto os raios de sol quente entram pela janela da sala e me queimam a pele tento esquecer e abstrair-me deste nó na garganta que assentou em mim e nunca mais desarredou. E sonho, sonho com o dia em que tudo voltará à “normalidade”. O dia em que ele vai dizer “os seus exames estão regulares. Esta batalha está vencida”. Apesar de às vezes duvidar, sei que esse dia vai chegar. Sei que vamos todos voltar a rir sempre, que este aperto no peito vai desaparecer, que vou voltar a abraçar a minha gata, sentir o seu cheiro e o calor daquela barriga macia, que vou voltar ao trabalho, a sair à noite, a correr na praia, a reencontrar o amor, a aumentar a minha família. Há dias que sei que esse dia está mesmo ali ao virar da esquina… é só resistir um pouco mais até lá chegar.

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